2025: o ano em que a ciência do Cerrado levantou a voz
Chegamos ao final de 2025 com a certeza de que a produção de conhecimento científico é também um ato de
resistência e de esperança. Em um ano marcado pela intensificação da emergência climática e pela necessidade
urgente de respostas estruturais, a Rede Biota Cerrado (RBC) não apenas produziu dados: ocupou espaços,
formou novos defensores do bioma e exigiu que a savana mais biodiversa do planeta fosse ouvida.
O ano começou com forte atuação política em defesa do orçamento para a ciência. A RBC participou de uma
Comissão Geral na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) para debater os cortes na FAPDF. A
pesquisadora Isabel Schmidt cobrou a reposição de valores essenciais para a continuidade de pesquisas sobre
manejo do fogo e restauração, destacando o impacto direto desses cortes na preservação do Cerrado.
A ciência garantiu seu assento nas decisões de gestão ambiental. O professor Reuber Brandão tomou posse como
Conselheiro Titular do Conselho Gestor do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Representando o setor
acadêmico, sua nomeação fortalece o embasamento técnico nas estratégias de conservação de uma das unidades
mais importantes do bioma.
A RBC manteve-se firme na defesa de políticas públicas coerentes, posicionando-se contra os retrocessos do PL
do Licenciamento Ambiental (2.159/2021). Nossos pesquisadores foram à mídia defender os vetos necessários para
proteger territórios indígenas, quilombolas e a biodiversidade.
A RBC fortaleceu laços com a comunidade. Participamos do Encontro de Pesquisadores e Sociedade da Chapada dos
Veadeiros, debatendo turismo sustentável e manejo do fogo, e integramos o seminário sobre a Agenda 2030,
discutindo o Cerrado como paisagem cultural.
O ano foi decisivo para posicionar o Cerrado na agenda climática global. Em outubro, durante o 2º Simpósio do
Cerrado, as redes Biota Cerrado, ComCerrado e PPBio Araguaia lançaram o Manifesto Cerrado na COP30. O
documento exigiu o reconhecimento do bioma como patrimônio natural e medidas urgentes de Desmatamento Zero,
alertando que ignorar o Cerrado na conferência climática é um erro estratégico.
A Coleção Zoológica da UFPI, coordenada pelo pesquisador da RBC Davi Pantoja, foi contemplada com mais de R$
2,3 milhões em edital da FINEP. O recurso visa a preservação, divulgação e restauração do acervo,
consolidando a UFPI como um polo de referência em biodiversidade no Piauí e fortalecendo a rede de pesquisa
no Nordeste. O Departamento de Biologia da UFPI sediou a Oficina de Planejamento do 3º ciclo do PAN
Herpetofauna do Nordeste em Teresina, reunindo gestores ambientais e estudantes, com a participação de
alguns pesquisadores da Rede (Daniel Mesquita, Adrian Garda, Vitor Cavalcante e Davi Pantoja), para discutir
e definir ações voltadas à conservação de anfíbios e répteis ameaçados da região.
Nossos pesquisadores percorreram milhares de quilômetros em 2025. Em novembro, a Expedição Manejo Integrado
do Fogo passou 30 dias no Mato Grosso (Chapada dos Guimarães e Serra das Araras) investigando como o fogo
molda a biodiversidade. Essa jornada gerou a série de vídeos “Diário de Campo”, que apresentou o trabalho de
todas as equipes envolvidas. No primeiro semestre, nossas equipes ainda revisitaram “ilhas de Cerrado” em
Rondônia para verificar a resistência dessas áreas.
O conhecimento foi consolidado em obras importantes. Destacamos o lançamento do livro Fire in the South
American Ecosystems, com forte participação da RBC, e do livro fotográfico e científico Bichos:
Trijunção & Grande Sertão Veredas. Na literatura acadêmica, publicamos estudos relevantes sobre a
ecologia de serpentes e padrões climáticos de fogo.
Integrando a programação oficial da Universidade de Brasília (UnB) voltada à conferência climática, foi
lançado no Salão de Atos da Reitoria o livro "Bichos: Trijunção & Grande Sertão Veredas". A obra,
fruto da
colaboração entre o fotógrafo André Dib e o pesquisador da RBC Reuber Brandão, documenta a fauna da região
da Trijunção (divisa entre Bahia, Goiás e Minas Gerais). O evento reuniu representantes do terceiro setor,
das artes e de entidades do sistema de proteção ambiental, evidenciando como a união entre rigor científico
e sensibilidade artística é uma ferramenta estratégica para sensibilizar a sociedade e fortalecer a
conservação do Cerrado na agenda global.
Um estudo liderado pela RBC e publicado na Agricultural and Forest Meteorology trouxe dados cruciais
para o manejo do bioma. A pesquisa revelou que temporadas de fogo severas no Cerrado são frequentemente
precedidas por outonos quentes e secos, estabelecendo uma correlação direta que pode orientar políticas de
prevenção e alerta precoce.
Avançamos na ciência da restauração. Divulgamos dados de 9 anos de monitoramento de plantas lenhosas em cinco
unidades de conservação e um estudo inédito sobre áreas prioritárias para restauração do Cerrado,
desenvolvido pela bolsista Ana Caroline Cardoso Aragão.
A colaboração científica se expandiu com a parceria entre a RBC, a Rede ComCerrado e o Instituto Nacional de
Coleoptera (Incol). Pesquisadores alinharam ações na Coleção Entomológica da UFMT para focar na coleta de
besouros e polinizadores, insetos essenciais para avaliar a fertilidade do solo e o equilíbrio dos
ecossistemas.
O ano foi produtivo para o estudo de répteis. Uma pesquisa de seis anos sobre serpentes na transição
Cerrado-Amazônia revelou padrões de adaptação à seca e chuva. Paralelamente, um estudo publicado na Biotropica
demonstrou que a sobrevivência do lagarto Tropidurus oreadicus depende criticamente da velocidade dos
filhotes, um fator ameaçado pelas mudanças climáticas e desmatamento.
A RBC engajou-se no combate à desinformação climática e ambiental. Participamos do lançamento da Iniciativa
Global para a Integridade da Informação sobre Mudança do Clima (G20/UNESCO) e, em novembro, o projeto Fogo
na Fake atuou na Semana Universitária da UnB com jogos educativos sobre o manejo do fogo.
A integração entre universidades foi destaque com a visita de estudantes da UNEMAT (Nova Xavantina) à
Universidade de Brasília. O grupo realizou pesquisas na Coleção Herpetológica (CHUNB) e participou
de
atividades de campo, trocando experiências sobre coleta de dados e análise demográfica com a equipe
da UnB.
A formação e capacitação em temáticas ambientais foram pilares centrais em 2025. Realizamos a segunda edição
do curso para jornalistas sobre Manejo Integrado do Fogo, em parceria com o ICMBio, Parque Nacional de
Brasília, Ibama e a FAC/UnB, e lançamos uma cartilha orientadora para a imprensa, elaborada em conjunto pelo
ICMBio, pela UnB, pelo Ibama e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Também
desenvolvemos cursos de taxidermia científica no Mato Grosso e participamos ativamente das atividades da
disciplina de Jornalismo Ambiental, em parceria com a Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília
(FAC/UnB).
Inovamos na forma de comunicar. Lançamos o podcast Memórias de Campo, com histórias de bastidores
da
pesquisa, e a série de vídeos Minuto RBC. Também investimos na formação da próxima geração de
comunicadores, oferecendo treinamento em IA e Automação para estudantes de Jornalismo Ambiental da UnB.
A formação de novos defensores do bioma ganhou força em novembro. A equipe da RBC recebeu alunos do Curso
de
Monitor Ambiental – Projeto Lobo-Guará (IFMT/Cáceres) na Estação Ecológica Serra das Araras (MT).
Guiados
por pesquisadores como Guarino Colli, Ana Paula Carmignotto e Bruna de França Gomes, os jovens
vivenciaram a
rotina científica, aprendendo sobre a herpetofauna e o impacto do fogo na biodiversidade. A imersão teve
como objetivo despertar a consciência sobre a preservação de nascentes e a importância das Unidades de
Conservação.
Celebramos o crescimento de nossos membros. A pesquisadora Rosane Collevatti tornou-se Professora Titular
na
UFG. Além disso, tivemos a defesa de teses e dissertações de bolsistas e a participação ativa de
estudantes
de graduação no Congresso de Iniciação Científica e em visitas técnicas.
Em março, a RBC participou ativamente da Reunião Anual do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio)
em
Sergipe. O evento debateu os cortes orçamentários do CNPq, estratégias de comunicação e lançou grupos de
trabalho sobre diversidade e inclusão, reafirmando a importância da integração entre as redes de
pesquisa do
país.
A ciência produzida pela RBC ganhou o mundo. O coordenador-geral, Guarino Colli, recebeu o prêmio
internacional “Serviço Distinto à Herpetologia” da Herpetologists' League. Além disso, a Rede
marcou
presença no 61º encontro da ATBC no México e a jovem pesquisadora Maria Luiza Gonçalves representou o
grupo
no Global Youth Climate Summit.
Fechando o ano, a coordenadora de Engajamento Público com a Ciência (PA5) da RBC, Dione Moura, foi
agraciada
com o 1º Prêmio JK. Concedida pelo Correio Braziliense, a premiação celebra personalidades
que
engrandecem Brasília e reconheceu a trajetória de Dione na defesa da educação pública, das ações
afirmativas
e do protagonismo de mulheres negras na ciência. A premiação destacou que seu trabalho na defesa do
Cerrado
une justiça social, sustentabilidade e comunicação.