Não te conhecemos, mas sentimos tua perda
por Izabela da Silva Santos e Cecilia Waichert
Os insetos já somam mais de 1 milhão de espécies conhecidas pela Ciência. E, apesar da grande biodiversidade, um declínio alarmante vem sendo registrado nas últimas décadas. Estudos demonstram uma diminuição de 10-40% no número de espécies e de 25-75% na quantidade de indivíduos. Estima-se que mais de 40% das espécies de insetos estejam em declínio populacional e que um terço delas seja considerado ameaçado de extinção. Nesse contexto global, o Brasil apresenta dados igualmente preocupantes. Em Curitiba, estudos apontaram uma perda de 37% na abundância e de 45% na riqueza de abelhas ao longo de 34 anos.
O declínio dos insetos acontece sem a descrição prévia ou o reconhecimento formal de sua biodiversidade. Essa redução, que envolve a perda generalizada de riqueza e abundância do grupo, ocorre sobretudo devido ao uso intensivo de agrotóxicos, às mudanças climáticas, ao desmatamento, às queimadas e às alterações no uso do solo. Estima-se que existam mais de 5,5 milhões de espécies de insetos, o que indica que cerca de 80% ainda não foram descobertas (Figura 1).
Essa perda fica ainda mais urgente em ambientes com forte degradação ambiental. Em 2025, o Cerrado foi o bioma mais degradado devido à expansão do agronegócio e já perdeu mais de 50% de sua vegetação natural. Em extensão, é o segundo maior bioma da América do Sul, sendo considerado Reserva Mundial da Biosfera e um hotspot de biodiversidade pela alta riqueza de espécies, endemismo e grau de ameaça. Destaca-se por abrigar 5% das espécies do planeta e 30% das espécies do Brasil, segundo relatório da World Wildlife Fund (WWF). Ainda assim, mantém apenas 7,5% de sua área sob proteção ambiental integral. O Cerrado é prioridade em nossa atenção, somando-se ao fato de ser um dos biomas menos conhecidos em relação à entomofauna (Figura 2)
Cerca de 90.000 espécies de insetos do Cerrado são conhecidas, mas esse número certamente é subestimado. Estudos continuam a revelar novas espécies e novos registros no bioma. Da mesma forma, nosso conhecimento acerca do habitat dos insetos, sua alimentação, suas interações no ambiente e os impactos das mudanças climáticas sobre eles é extremamente limitado.
Assim, a perda de insetos ocorre de maneira silenciosa e desconhecida, contudo, suas consequências são percebidas, inclusive economicamente. Os insetos prestam diversos serviços em favor da humanidade, que vão desde a produção de alimentos até o lazer e o bem-estar. Por exemplo, os benefícios econômicos da polinização na agricultura são estimados entre US$ 235 e 577 bilhões por ano. Cerca de 16% da produção agrícola e extrativista do Brasil depende da biodiversidade de polinizadores, podendo chegar a 25% em alguns setores. No cultivo de soja, a ausência de polinizadores pode reduzir a produtividade em cerca de 30% (Figura 3)
Dado o avanço acelerado da produção agrícola e das pastagens no Cerrado, é urgente e imprescindível intensificar os esforços na geração de conhecimento científico, na proteção das populações de insetos e na conservação do bioma. Compreender o funcionamento dos ecossistemas, identificar e mitigar situações que ameaçam as espécies e avaliar o impacto que exercemos sobre seus habitats são os primeiros passos para reconhecer sua importância na manutenção da saúde do ambiente. Estudos de inventários, ciência cidadã e monitoramentos a longo prazo devem ser viabilizados. Esse entendimento transforma a consciência em ações concretas e em políticas públicas eficazes. Além de razões tão simples e nobres, como a convivência harmoniosa entre todas as formas de vida do planeta, há uma justificativa pragmática e econômica: dependemos dos serviços que a biodiversidade de insetos nos oferece. As ações devem ser imediatas; afinal, não é exagero afirmar que a nossa sobrevivência está diretamente ligada à preservação desses pequenos seres.