Da Década da Restauração ao Cerrado: ciência para orientar prioridades
por Ana Caroline Cardoso Aragão e Ticiane de Lima Costa e edição por Lauro Moraes
Para muitos, a virada do ano de 2026 representa apenas mais uma mudança no calendário. Para a ciência, porém, marca a metade da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas (2021–2030), uma iniciativa global que posiciona a restauração de ecossistemas degradados (Figura 1) como ferramenta central no enfrentamento da perda da biodiversidade e das mudanças climáticas. Nesse contexto, o Brasil assumiu metas ambiciosas, como a prevista pelo Marco Global da Biodiversidade de Kunming–Montreal, que estabelece a restauração de 30% dos ecossistemas degradados até 2030. No entanto, diante de recursos limitados e do pouco tempo restante, o cumprimento dessas metas exige planejamento estratégico por parte da comunidade científica e das pessoas tomadoras de decisão, de modo a direcionara restauração para as áreas onde ela seja mais eficaz e gere maiores ganhos ambientais.
No Brasil, esse desafio é particularmente crítico no Cerrado, um dos biomas mais biodiversos do planeta e, simultaneamente, um dos mais ameaçados pela perda e conversão da vegetação nativa (Figura 2). É nesse contexto que se insere o estudo “Optimizing restoration outcomes in the Brazilian Cerrado: A spatial planning framework integrating endemic lizard biodiversity, connectivity, and costs”, publicado recentemente na revista Biological Conservation e desenvolvido por pesquisadores da Rede Biota Cerrado. O estudo propõe um modelo inovador para responder a uma pergunta que parece simples, mas conceitualmente complexa: onde a restauração no Cerrado pode ser realizada de forma eficiente? Especificamente, buscou-se identificar áreas que equilibram o máximo retorno para a biodiversidade com os menores custos envolvidos.
Como o estudo foi feito: os lagartos como embaixadores
Responder à questão central exigiu que os pesquisadores fossem além do óbvio, unindo biologia, tecnologia e economia em uma única estratégia. Ademais, exigiu superar desafios comuns na ciência da conservação, como a escassez de dados e a urgência na tomada de decisão. Diante da impossibilidade de mapear todas as espécies do bioma, a equipe adotou uma escolha estratégica: focar nos lagartos endêmicos. Essa decisão baseou-se em décadas de conhecimento acumulado e na evidência de que esses animais funcionam como excelentes indicadores de biodiversidade — onde o ambiente é bom para eles, geralmente é bom para muitas outras espécies. Para incluir até as espécies mais raras (Figura 3) e com poucos registros, a equipe utilizou a técnica Enphylo, que permitiu prever áreas adequadas para esses animais com alta precisão. Mas o estudo foi além da biologia: foram integrados modelos de conectividade funcional — garantindo que as áreas restauradas ajudem os animais a se deslocarem entre fragmentos hoje isolados — e uma análise rigorosa de custos, identificando onde a recuperação é economicamente mais viável.
Bússola para a decisão: onde estão as prioridades?
Os resultados revelaram que a restauração não precisa ser um jogo de tentativa e erro. O estudo identificou áreas prioritárias de restauração que equilibram, de forma otimizada, a proteção de espécies raras, a conectividade da paisagem e o baixo custo financeiro. As áreas de melhor custo-benefício encontram-se em quatro porções estratégicas do bioma (Figura 4):
- Centro: áreas com alta riqueza de espécies e gradientes de altitude que funcionam como berçários de vida única.
- Sudeste: esta região reforça a urgência da restauração. É uma região de transição para a Mata Atlântica, crucial para espécies ameaçadas, mas carrega as cicatrizes de uma longa ocupação humana e continua sob intensa pressão urbana e agrícola até hoje.
- Norte (MATOPIBA): a última grande fronteira de vegetação intacta, onde a restauração rápida é vital para conter o avanço das monoculturas. Esta foi uma nova área prioritária identificada pelo trabalho.
- Oeste (Mato Grosso): áreas que oferecem uma oportunidade estratégica de baixo custo financeiro e alto retorno biológico, mesmo em paisagens dominadas por pastagens. Também foi uma nova área prioritária identificada pelo trabalho.
O amanhã do Cerrado se planeja hoje
A ciência nos mostra que restaurar um bioma não é apenas sobre onde plantar árvores, mas sobre permitir que a vida floresça onde é mais necessária. Ao integrar dados sobre espécies raras, o movimento dos animais na paisagem e os custos financeiros, este estudo oferece um caminho claro para que o Cerrado não seja apenas recuperado, mas reconectado.
No fim das contas, a preservação da biodiversidade e o desenvolvimento econômico não precisam estar em lados opostos da mesa. A adoção de estratégias de priorização, como a apresentada aqui, permite maximizar os benefícios da restauração ecológica, conciliando a proteção do legado evolutivo de lagartos únicos endêmicos com a manutenção das funções ecológicas do Cerrado, essenciais para o clima e o bem-estar das pessoas. O momento para agir é agora, e a ciência já oferece os caminhos e instrumentos para orientar decisões mais eficazes.
Glossário
- Conectividade da paisagem - Grau de ligação entre áreas naturais em uma região. Quanto maior a conectividade, maior a possibilidade de fluxo de organismos, genes e processos ecológicos entre fragmentos de vegetação.
- Conectividade funcional - Capacidade real da paisagem de permitir o deslocamento dos organismos, considerando suas características biológicas. Não depende apenas da presença física de corredores, mas de como cada espécie interage com o ambiente.
- Espécies endêmicas - Espécies que ocorrem exclusivamente em uma determinada região geográfica. Se desaparecerem dessa área, deixam de existir no planeta.
- Espécies raras - Espécies com distribuição restrita ou com poucos registros conhecidos, muitas vezes associadas a ambientes específicos. Podem ser naturalmente raras ou pouco amostradas cientificamente.
- Indicadores de biodiversidade - Espécies ou grupos de organismos cuja presença, abundância ou distribuição refletem as condições ambientais de um ecossistema. Quando esses organismos estão bem conservados, é provável que outras espécies também estejam.
- Legado evolutivo - Conjunto de características genéticas, ecológicas e comportamentais acumuladas por uma espécie ao longo de sua história evolutiva. Preservá-lo significa manter linhagens únicas e a diversidade da vida no planeta.
- MATOPIBA - Acrônimo formado pelas iniciais de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A região é considerada a principal fronteira recente de expansão agrícola no Cerrado.
- Restauração ecológica - Conjunto de ações destinadas a recuperar ecossistemas degradados, restabelecendo sua biodiversidade, suas funções ecológicas e sua capacidade de se manter ao longo do tempo.