Da Década da Restauração ao Cerrado: ciência para orientar prioridades

por Ana Caroline Cardoso Aragão e Ticiane de Lima Costa e edição por Lauro Moraes


Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Figura 1. Área do Cerrado em processo de restauração na Chapada dos Veadeiros (GO). A restauração ecológica busca recuperar a biodiversidade e as funções naturais da paisagem. Foto: David Ayronn

Para muitos, a virada do ano de 2026 representa apenas mais uma mudança no calendário. Para a ciência, porém, marca a metade da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas (2021–2030), uma iniciativa global que posiciona a restauração de ecossistemas degradados (Figura 1) como ferramenta central no enfrentamento da perda da biodiversidade e das mudanças climáticas. Nesse contexto, o Brasil assumiu metas ambiciosas, como a prevista pelo Marco Global da Biodiversidade de Kunming–Montreal, que estabelece a restauração de 30% dos ecossistemas degradados até 2030. No entanto, diante de recursos limitados e do pouco tempo restante, o cumprimento dessas metas exige planejamento estratégico por parte da comunidade científica e das pessoas tomadoras de decisão, de modo a direcionara restauração para as áreas onde ela seja mais eficaz e gere maiores ganhos ambientais.

No Brasil, esse desafio é particularmente crítico no Cerrado, um dos biomas mais biodiversos do planeta e, simultaneamente, um dos mais ameaçados pela perda e conversão da vegetação nativa (Figura 2). É nesse contexto que se insere o estudo “Optimizing restoration outcomes in the Brazilian Cerrado: A spatial planning framework integrating endemic lizard biodiversity, connectivity, and costs”, publicado recentemente na revista Biological Conservation e desenvolvido por pesquisadores da Rede Biota Cerrado. O estudo propõe um modelo inovador para responder a uma pergunta que parece simples, mas conceitualmente complexa: onde a restauração no Cerrado pode ser realizada de forma eficiente? Especificamente, buscou-se identificar áreas que equilibram o máximo retorno para a biodiversidade com os menores custos envolvidos.

Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Figura 2. Área do Cerrado afetada pelo rebaixamento do lençol freático na região da Trijunção (BA, GO e MG), um dos impactos associados à conversão da vegetação nativa. Foto: David Ayronn.

Como o estudo foi feito: os lagartos como embaixadores

Responder à questão central exigiu que os pesquisadores fossem além do óbvio, unindo biologia, tecnologia e economia em uma única estratégia. Ademais, exigiu superar desafios comuns na ciência da conservação, como a escassez de dados e a urgência na tomada de decisão. Diante da impossibilidade de mapear todas as espécies do bioma, a equipe adotou uma escolha estratégica: focar nos lagartos endêmicos. Essa decisão baseou-se em décadas de conhecimento acumulado e na evidência de que esses animais funcionam como excelentes indicadores de biodiversidade — onde o ambiente é bom para eles, geralmente é bom para muitas outras espécies. Para incluir até as espécies mais raras (Figura 3) e com poucos registros, a equipe utilizou a técnica Enphylo, que permitiu prever áreas adequadas para esses animais com alta precisão. Mas o estudo foi além da biologia: foram integrados modelos de conectividade funcional — garantindo que as áreas restauradas ajudem os animais a se deslocarem entre fragmentos hoje isolados — e uma análise rigorosa de custos, identificando onde a recuperação é economicamente mais viável.

Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro. Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Figura 3. Enyalius capetinga, espécie rara e endêmica do Cerrado incluída nos modelos do estudo. Sua distribuição foi estimada com o método ENphylo, que utiliza informações evolutivas de espécies aparentadas para modelar espécies com poucos registros. Foto: David Ayronn.

Bússola para a decisão: onde estão as prioridades?

Os resultados revelaram que a restauração não precisa ser um jogo de tentativa e erro. O estudo identificou áreas prioritárias de restauração que equilibram, de forma otimizada, a proteção de espécies raras, a conectividade da paisagem e o baixo custo financeiro. As áreas de melhor custo-benefício encontram-se em quatro porções estratégicas do bioma (Figura 4):

  • Centro: áreas com alta riqueza de espécies e gradientes de altitude que funcionam como berçários de vida única.
  • Sudeste: esta região reforça a urgência da restauração. É uma região de transição para a Mata Atlântica, crucial para espécies ameaçadas, mas carrega as cicatrizes de uma longa ocupação humana e continua sob intensa pressão urbana e agrícola até hoje.
  • Norte (MATOPIBA): a última grande fronteira de vegetação intacta, onde a restauração rápida é vital para conter o avanço das monoculturas. Esta foi uma nova área prioritária identificada pelo trabalho.
  • Oeste (Mato Grosso): áreas que oferecem uma oportunidade estratégica de baixo custo financeiro e alto retorno biológico, mesmo em paisagens dominadas por pastagens. Também foi uma nova área prioritária identificada pelo trabalho.
Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Figura 4.Áreas prioritárias para restauração no Cerrado (em verde), identificadas por um modelo de otimização que integra biodiversidade, conectividade e custos. As regiões Norte, Oeste, Centro e Sudeste concentram as áreas com melhor relação entre benefício ecológico e viabilidade econômica.

O amanhã do Cerrado se planeja hoje

A ciência nos mostra que restaurar um bioma não é apenas sobre onde plantar árvores, mas sobre permitir que a vida floresça onde é mais necessária. Ao integrar dados sobre espécies raras, o movimento dos animais na paisagem e os custos financeiros, este estudo oferece um caminho claro para que o Cerrado não seja apenas recuperado, mas reconectado.

No fim das contas, a preservação da biodiversidade e o desenvolvimento econômico não precisam estar em lados opostos da mesa. A adoção de estratégias de priorização, como a apresentada aqui, permite maximizar os benefícios da restauração ecológica, conciliando a proteção do legado evolutivo de lagartos únicos endêmicos com a manutenção das funções ecológicas do Cerrado, essenciais para o clima e o bem-estar das pessoas. O momento para agir é agora, e a ciência já oferece os caminhos e instrumentos para orientar decisões mais eficazes.

Glossário

  • Conectividade da paisagem - Grau de ligação entre áreas naturais em uma região. Quanto maior a conectividade, maior a possibilidade de fluxo de organismos, genes e processos ecológicos entre fragmentos de vegetação.
  • Conectividade funcional - Capacidade real da paisagem de permitir o deslocamento dos organismos, considerando suas características biológicas. Não depende apenas da presença física de corredores, mas de como cada espécie interage com o ambiente.
  • Espécies endêmicas - Espécies que ocorrem exclusivamente em uma determinada região geográfica. Se desaparecerem dessa área, deixam de existir no planeta.
  • Espécies raras - Espécies com distribuição restrita ou com poucos registros conhecidos, muitas vezes associadas a ambientes específicos. Podem ser naturalmente raras ou pouco amostradas cientificamente.
  • Indicadores de biodiversidade - Espécies ou grupos de organismos cuja presença, abundância ou distribuição refletem as condições ambientais de um ecossistema. Quando esses organismos estão bem conservados, é provável que outras espécies também estejam.
  • Legado evolutivo - Conjunto de características genéticas, ecológicas e comportamentais acumuladas por uma espécie ao longo de sua história evolutiva. Preservá-lo significa manter linhagens únicas e a diversidade da vida no planeta.
  • MATOPIBA - Acrônimo formado pelas iniciais de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A região é considerada a principal fronteira recente de expansão agrícola no Cerrado.
  • Restauração ecológica - Conjunto de ações destinadas a recuperar ecossistemas degradados, restabelecendo sua biodiversidade, suas funções ecológicas e sua capacidade de se manter ao longo do tempo.