O que o calango nos ensina sobre o futuro da biodiversidade
Estudo revela que o tempo de atividade é mais importante que a temperatura para prever os impactos climáticos
por Ticiane de Lima Costa e Gabriel Henrique e edição por Tayanne Silva
Quando os cientistas afirmam que mudanças climáticas são reais e que são geradas por atividades humanas eles não estão se baseando em achismos, cartas de tarot ou bolas de cristal. Essas conclusões se apoiam em décadas de estudos cuidadosamente delineados que mostram padrões consistentes. Cerca de 97% dos cientistas climáticos concordam sobre o papel dos seres humanos nas mudanças climáticas. Ainda assim, campanhas organizadas de desinformação buscaram semear dúvidas sobre essa importante ameaça à biodiversidade e ao bem-estar humano. Isso torna cada nova evidência ainda mais valiosa, especialmente quando originam de organismos e ecossistemas diversos, reforçando o consenso científico.
Nesta perspectiva de contribuir com novas evidências, lagartos podem ser particularmente interessantes para estudos de avaliações de mudanças climáticas. Como organismos ectotérmicos, lagartos dependem da temperatura do ambiente para regular suas funções corporais. Cada espécie possui uma faixa de temperatura ideal: se o ambiente está frio demais, suas atividades ficam lentas; se está quente demais, precisam se esconder para evitar o superaquecimento ( Figura 1). Isso significa que sua capacidade de caçar, escapar de predadores, reproduzir e sobreviver depende não somente da temperatura ambiental, mas também de quantas horas por dia podem se manter ativos com segurança.
Talvez você se pergunte: por que estudar um lagarto comum?
Porque entender o efeito de mudanças climáticas em lagartos é muito mais amplo do que a própria espécie. Lagartos têm papel central nos ecossistemas, atuando como presas e predadores, conectando diferentes níveis das teias alimentares. Se sua atividade diária é restringida pelas mudanças climáticas, os impactos se espalham em cascata. Ademais, por serem altamente sensíveis ao clima, lagartos também podem atuar como bioindicadores, se tornando sistemas de aviso precoce para os efeitos das mudanças climáticas.
Um exemplo emblemático é a espécie Tropidurus torquatus, conhecido popularmente como calango, para muitos um símbolo do Cerrado (Figura 2). Uma equipe de pesquisa da Universidade de Brasília, em colaboração com a Universidade da Califórnia Santa Cruz, investigou como as mudanças climáticas afetam os padrões de atividades desses lagartos e, portanto, sua capacidade de sobreviver em um local.
Como o estudo foi feito?
A equipe de pesquisa combinou diversos métodos para saber se o Tropidurus torquatus será afetado ou não por mudanças climáticas no futuro. Foram realizadas coletas de dados em campo com equipamentos especializados, experimentos fisiológicos e modelos matemáticos. Todo esse esforço é necessário para que tenhamos certeza de que nossos resultados realmente refletem a realidade sobre os efeitos das mudanças climáticas sobre esses animais.
Para começar, a equipe viajou para cinco cidades em diferentes regiões do Cerrado: Brasília no Distrito Federal; Nova Xavantina, Gaúcha do Norte e Alta Floresta em Mato Grosso e Lagoa da Confusão em Tocantins. Em cada um desses lugares, diversas espécies de répteis e anfíbios foram capturadas, entre elas o Tropidurus torquatus. Esses calangos foram levados ao laboratório, onde experimentos foram conduzidos para entender como mudanças na temperatura afetam esses animais. Um desses experimentos é o gradiente de temperatura (Figura 3), que busca entender em quais temperaturas os lagartos preferem estar: os animais eram colocados em uma espécie de caixa, na qual um lado era aquecido com uma lâmpada incandescente e o outro lado era resfriado com gelo. Dessa forma, o animal poderia escolher permanecer em suas temperaturas preferidas, que eram medidas usando uma espécie de termômetro automático, que registra a temperatura do corpo do animal a cada minuto.
Uma vez definidas as temperaturas preferidas dos lagartos, a equipe de pesquisa calculou o número de horas por dia em que o animal estaria dentro dessas temperaturas, ao longo de sua distribuição em todo o Cerrado. Mas como eles sabiam quais as eram as temperaturas em todos os lugares do Cerrado? Para isso, eles usaram o trabalho realizado por outros cientistas, os climatólogos. Esses cientistas usam dados de estações climáticas e modelos matemáticos para descobrir as temperaturas em qualquer lugar do mundo. Eles também podem usar os mesmos modelos para descobrir como o clima será no futuro! Essas informações sobre o futuro são muito úteis para os cientistas que estudam a biodiversidade, pois permitem estimar o efeito de mudanças climáticas sobre animais, plantas ou ecossistemas. Ao associar esses dados climáticos com os dados de temperatura preferencial e as horas de atividade de Tropidurus torquatus é possível estimar em que lugares essa espécie poderá viver no futuro.
Resultados
O resultado foi um pouco surpreendente: por ser uma espécie tolerante ao calor o Tropidurus torquatus poderia se beneficiar e expandir sua distribuição no futuro para áreas que atualmente são frias demais para sua atividade. Porém, essa possível vantagem traz custos sob um panorama ecológico mais amplo, aumentando a competição entre espécies. Mesmo que essa espécie se beneficie, outras podem perder espaço, resultando em desequilíbrios nos ecossistemas. Em última instância esse desequilíbrio pode afetar a diversidade de lagartos. Ainda assim, a mensagem subjacente é clara: estamos enfrentando uma alteração fundamental nos relógios biológicos da natureza, exigindo atenção urgente e ação baseada na ciência.
Por que estudar o calango?
O Tropidurus torquatus é uma espécie bioindicadora para mudanças climáticas atuando como um “sinal de alerta” para efeitos que podem afetar outras espécies ou ecossistemas inteiros. Esse calango também faz parte de uma teia alimentar, de maneira que a extinção de qualquer espécie pode ter consequências imprevisíveis que se espalham por toda essa rede, potencialmente afetando todo o ecossistema. Finalmente, Tropidurus torquatus é considerado um organismo modelo. Isso significa que ele é um organismo mais fácil de ser estudado, pois tem uma distribuição muito grande, é abundante e fácil de ser capturado. Os organismos modelos são essenciais para testar novas metodologias científicas, antes dessas serem aplicadas a outras espécies mais difíceis de serem estudadas. Na época em que esse estudo foi realizado, a metodologia proposta era muito nova. Assim, foi importante testar se adicionar informações sobre as temperaturas preferidas do lagarto realmente melhoram os modelos matemáticos para prever o efeito das mudanças climáticas. Os resultados foram positivos: ao incluir informações da espécie, os resultados foram significativamente mais confiáveis. Desde então, esse método foi usado em diversos estudos com propostas similares: investigar o efeito de mudanças climáticas em outras espécies de animais no mundo todo, incluindo outros lagartos, cobras, sapos, e até mamíferos como tatus, tamanduás e bichos preguiça.
Tropidurus torquatus também possui importância cultural: ele é a mais comum das espécies popularmente conhecidas como “calango”, sendo bastante visível em todo o Cerrado, incluindo em áreas urbanas. O calango talvez seja apenas menos famoso que a lagartixa de parede (Hemidactylus mabouia), que na verdade não é uma espécie nativa do Brasil, tendo sido introduzida a partir da África a muitos séculos. Devido à sua visibilidade, o calango está bastante presente no imaginário popular e na cultura dos habitantes do Cerrado. Em Brasília, por exemplo, temos blocos de carnaval, restaurantes, bares, lojas, clubes e trilhas com nomes em homenagem ao calango. O calango está presente na literatura de cordel, na música popular, na gíria e até no esporte, como mascote de times de futebol e equipes de corrida automobilística. Existe também o estilo de música e dança popular chamado “Calango”, típico do Vale do Paraíba, em Minas Gerais. O Calango recebe esse nome devido a agilidade necessária para essa dança, que seria similar à de um calango. Ao preservar esses animais também estamos preservando a cultura brasileira.
Conclusão
Este estudo reforça o consenso de que mudanças climáticas não são somente uma ameaça distante, mas sim uma realidade atual. O reconhecimento desse consenso é crítico para aumentar a confiança da sociedade na ciência e possibilitar a tomada de decisões. Ao incorporar a zona de conforto térmico de Tropidurus torquatus, foi possível identificar a importância das horas de atividade na definição da atividade da espécie. Assim, identificamos que não basta saber se uma área é simplesmente quente ou fria. O que realmente importa é quanto tempo o organismo pode permanecer ativo, considerando sua zona de conforto térmica. As mudanças climáticas reduzem drasticamente o tempo de atividade de ectotérmicos, os tornando vulneráveis aos efeitos associadas à redução de seu tempo de atividade.
Glossário
- Calango - Nome popular aplicado a diversas espécies de lagartos brasileiros, dos quais a mais comum e visível é o Tropidurus torquatus. Em algumas regiões, como na Caatinga, esse nome é aplicado mais frequentemente a outras espécies, como Ameiva ameiva.
- Consenso científico - Quando a grande maioria dos e das cientistas concorda sobre um tema, depois de muitos estudos diferentes apontarem para a mesma conclusão. Não significa que não existam dúvidas ou debates, mas que as evidências já são fortes o suficiente para apoiar uma visão comum.
- Desinformação - Informação falsa ou enganosa que é espalhada de propósito ou por descuido. Pode parecer verdadeira, mas não tem base em fatos ou em ciência confiável. A desinformação costuma confundir as pessoas e atrapalhar a tomada de decisões importantes.
- Espécie bioindicadora - Espécies que são sensíveis a certas condições ambientais, e por isso são as primeiras a serem afetadas quando há uma mudança nesse ambiente. Os lagartos são espécies bioindicadoras para mudanças climáticas, pois são muito sensíveis à temperatura. Os anfíbios são espécies bioindicadoras para poluição das águas, pois possuem uma pele permeável que pode rapidamente absorver poluentes.
- Gradiente de temperatura - Equipamento usado para medir as temperaturas preferidas de lagartos. Os animais são colocados dentro de uma divisão estreita em uma caixa, em que um lado é aquecido por uma lâmpada e outro lado é resfriado com gelo. O animal é então deixado livre para escolher em quais temperaturas prefere estar, enquanto um fio colado em seu corpo mede sua temperatura a cada minuto e envia essa informação a um computador, onde esses dados são registrados.
- Mudanças climáticas - Transformações de longo prazo no clima da Terra, como o aumento da temperatura média, a alteração dos padrões de chuva e o derretimento de geleiras. Hoje sabemos que essas mudanças estão acontecendo muito rápido por causa de atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento.
- Organismos ectotérmicos - Animais que não tem a capacidade de regular a temperatura do próprio corpo usando seu próprio metabolismo, como répteis e anfíbios. A temperatura do corpo deles varia conforme a temperatura do ambiente, o que tem grande influência no funcionamento de seu corpo.
- Organismo modelo - Espécies mais fáceis de serem estudados, e por isso são usadas para testar novas teorias e métodos de estudo, que depois podem ser aplicados a outras espécies. O Tropidurus torquatus é uma espécie modelo para o estudo de mudanças climáticas, a mosca da fruta é um modelo para o estudo de genética e a rã-de-unhas-africana é um modelo para o estudo de embriologia.
- Teia alimentar - Rede de relações entre espécies em um ecossistema, baseada em seus hábitos alimentares. Presas e predadores estão conectados entre si na teia alimentar, e impactos a um membro dessa rede podem se espalhar a outros membros conectados, potencialmente desencadeando efeitos a todo ecossistema.