Quando até a noite esquenta: o desafio de animais noturnos diante das mudanças climáticas
Entenda como os impactos do aquecimento podem representar uma ameaça invisível para a biodiversidade mesmo depois que o sol se põe.
Por Ticiane de Lima Costa e Comunicação - Rede Biota Cerrado
Em dias muito quentes, muitas pessoas aguardam ansiosamente o pôr do sol. Quando a noite chega, esperamos temperaturas mais amenas e algum alívio para o calor acumulado ao longo do dia. Mas o que acontece quando as noites também começam a ficar mais quentes?
Quando pensamos em mudanças climáticas, geralmente imaginamos ondas de calor, secas e temperaturas extremas durante o dia. Por isso, grande parte dos estudos sobre os efeitos do aquecimento global concentra-se em organismos ativos sob a luz do sol. Entretanto, muitas espécies realizam suas atividades principalmente durante a noite, aproveitando as temperaturas mais amenas para se alimentar, encontrar parceiros, evitar predadores e sobreviver. Em diversos ecossistemas, esses animais desempenham funções essenciais, como o controle de insetos, a dispersão de sementes e a ciclagem de nutrientes.
Apesar dessa diversidade, ainda sabemos relativamente pouco sobre como o aquecimento noturno afeta esses organismos. Essa lacuna é particularmente importante para os répteis, animais ectotérmicos cujas atividades dependem fortemente da temperatura do ambiente. Entre eles estão diversos geckos, um grupo de lagartos que inclui muitas espécies de hábitos noturnos distribuídas por diferentes regiões do planeta.
Para investigar como o aquecimento noturno pode afetar a biodiversidade, pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) utilizaram uma espécie noturna do Cerrado, Gymnodactylus amarali (Figura 1), como modelo de estudo. O trabalho foi desenvolvido a partir de dados coletados durante o mestrado de Arinos de Oliveira Serpa e incorporou novas análises, cujos resultados foram publicados recentemente na revista Frontiers in Amphibian and Reptile Science no artigo “Effects of climate change on a nocturnal gecko: an integrative analysis”. O objetivo foi investigar como as mudanças climáticas podem alterar as condições disponíveis durante a noite e quais consequências isso pode trazer para espécies que dependem dessas condições para sobreviver.
Como prever os impactos das mudanças climáticas sobre espécies noturnas?
Prever os efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade exige combinar diferentes tipos de informação. Neste estudo, a equipe integrou dados de ecofisiologia térmica, modelos de distribuição de espécies e simulações biofísicas do ambiente.
O primeiro passo foi entender como a espécie responde à temperatura. Para isso, foram realizados experimentos que permitiram determinar características como as temperaturas preferidas para atividade e os limites térmicos tolerados pelos animais. Essas informações ajudam a identificar quais condições favorecem sua sobrevivência e foram incorporadas aos modelos utilizados no estudo. Para saber mais sobre a ecofisiologia térmica e sua importância para prever os efeitos das mudanças climáticas, consulte nossa matéria anterior sobre o tema (O que o calango nos ensina sobre o futuro da biodiversidade).
Em seguida, os pesquisadores utilizaram modelos híbridos, que integram variáveis climáticas e informações ecofisiológicas da espécie. Esses modelos permitem identificar onde as condições ambientais são adequadas atualmente e como essas áreas poderão mudar ao longo das próximas décadas.
Mas saber onde uma espécie pode ocorrer é apenas parte da história. Por isso, a equipe também utilizou modelos biofísicos (Figura 2), ferramentas capazes de simular as trocas de calor entre os organismos e o ambiente. Com essas simulações, foi possível estimar como as mudanças climáticas afetam o microclima encontrado nos afloramentos rochosos onde esses lagartos vivem e quantas horas permanecem disponíveis para suas atividades ao longo do ano.
O que as espécies noturnas nos ensinam sobre o futuro da biodiversidade?
Os resultados revelaram um cenário preocupante. Ao analisar uma espécie representativa da biodiversidade noturna do Cerrado, os pesquisadores encontraram evidências de que as mudanças climáticas podem reduzir drasticamente as condições adequadas para sua sobrevivência. Os modelos projetaram uma perda superior a 96% da área climaticamente adequada até o final do século, independentemente do cenário climático considerado (Figura 3). Isso indica uma redução extremamente severa das condições necessárias para a persistência da espécie. Além disso, os modelos híbridos apresentaram desempenho superior aos modelos que utilizavam apenas informações ambientais ou apenas informações fisiológicas, mostrando que compreender a resposta dos organismos às mudanças climáticas exige considerar simultaneamente clima e biologia.
As simulações biofísicas revelaram um aspecto ainda mais importante: a quantidade de horas disponíveis para atividade tende a diminuir fortemente ao longo das próximas décadas. Em outras palavras, mesmo em locais onde a espécie ainda consiga persistir, haverá menos oportunidades para realizar atividades essenciais, como alimentação e reprodução. Ou seja, a sua vulnerabilidade pode aumentar antes mesmo da perda completa de hábitat adequado.
Os resultados também mostraram que os afloramentos rochosos (Figura 4) continuam desempenhando um papel importante. As rochas funcionam como verdadeiros reservatórios de calor, absorvendo energia durante o dia e liberando-a lentamente durante a noite. Esse efeito reduz variações bruscas de temperatura e cria microclimas mais favoráveis, que podem funcionar como refúgios térmicos para diferentes espécies. Entretanto, essa proteção possui limites. Embora os afloramentos rochosos possam amenizar parte dos efeitos do aquecimento, eles não são suficientes para compensar completamente a redução das condições adequadas previstas para o futuro.
Os resultados destacam um aspecto frequentemente negligenciado nas discussões sobre mudanças climáticas: os impactos do aquecimento não terminam quando o sol se põe. Espécies noturnas, muitas vezes pouco estudadas em comparação às espécies diurnas, também podem estar entre as mais vulneráveis às transformações climáticas em curso.
Mais do que compreender o destino de uma única espécie, estudos como este ajudam a revelar processos que podem afetar diversos organismos de hábitos noturnos. Eles também mostram a importância de incorporar informações sobre fisiologia, comportamento e microclimas às previsões sobre biodiversidade, tornando-as mais realistas e úteis para a conservação. As mudanças climáticas não terminam quando chega a noite. Entender seus efeitos sobre a biodiversidade exige olhar também para aquilo que acontece na escuridão, um desafio essencial para prever o futuro de inúmeras espécies que dependem da noite para sobreviver.
Glossário
- Ectotérmico: organismo cuja temperatura corporal depende principalmente das condições do ambiente.
- Gecko: grupo de lagartos geralmente associado a hábitos noturnos, encontrado em diferentes regiões do mundo.
- Ecofisiologia térmica: área da ciência que investiga como a temperatura influencia o funcionamento dos organismos.
- Modelo de distribuição de espécies: ferramenta utilizada para estimar onde uma espécie pode ocorrer com base nas condições ambientais.
- Modelo híbrido: modelo que combina informações ambientais e biológicas para prever a distribuição das espécies.
- Modelo biofísico: modelo que simula as trocas de energia entre organismos e ambiente para entender como fatores físicos influenciam sua sobrevivência.
- Microclima: conjunto de condições climáticas existentes em um local específico, que podem diferir das áreas ao redor. A sombra de uma árvore, uma fenda entre rochas ou o interior de uma floresta são exemplos de ambientes com microclimas próprios.