Cientistas destacam urgência de incluir o Cerrado na agenda da COP30

No encerramento do 2º Simpósio do Cerrado, especialistas que integram o maior programa brasileiro de pesquisa da biodiversidade defendem que a savana mais rica do mundo é prioridade inegociável para a Conferência, alertando sobre a “miopia” estética e política que negligencia o bioma. O grupo reuniu cinco motivos fundamentais que justificam a pertinência do Cerrado na pauta do encontro global

Ana Clara Canuto, Amanda Gonçalves, Angel Ikepea, Antonio Predjiotãtnh, Clara Malavergne, Luiza Cunha, Paloma Araújo, Samuel Magnos
(edição e supervisão: Lauro Moraes/RBC)


Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Crédito: David Ayronn / RBC

Pesquisadores reforçaram a urgência de incluir o Cerrado na pauta da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) durante o encerramento do 2º Simpósio do Cerrado, na última quarta-feira (22). O evento, realizado no Auditório do Jardim Botânico de Brasília e transmitido ao vivo pelo canal da Rede Biota Cerrado no YouTube, debateu a importância estratégica do bioma para o Brasil e para o planeta.

O último dia do simpósio ficou marcado pelo lançamento da campanha “Cerrado na COP 30”. Reuniram-se cientistas das três redes de pesquisa (Rede Biota Cerrado, PPbio Araguaia e ComCerrado) do bioma vinculadas ao Programa de Pesquisa em Biodiversidade – PPBio, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Os especialistas destacaram a contribuição do Cerrado para a biodiversidade, os recursos hídricos e a mitigação da crise climática. A comunidade científica articulou as principais razões pelas quais a savana mais rica em biodiversidade do mundo está no centro das crises climática, hídrica e social do Brasil. A COP 30, considerada a conferência mais importante do mundo sobre o tema, será realizada no mês que vem, na cidade de Belém, no Pará.

Cinco motivos para a agenda da COP30

Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Crédito: Frederico Balduino / RBC

O grupo destacou cinco motivos fundamentais para incluir o Cerrado na pauta da COP30:

  1. conservação da biodiversidade;
  2. manutenção de serviços ecossistêmicos;
  3. reconhecimento das comunidades tradicionais;
  4. promoção de justiça social;
  5. integração das políticas ambientais nacionais e internacionais.

Em exposição que fechou o painel “Por que e como o Cerrado deve ser pautado na COP30” , a professora Mariana Telles, coordenadora geral da Rede Araguaia e pesquisadora da Universidade Federal de Goiás e da PUC Goiás, fez um apelo: “O Cerrado é um bioma humilde, que não se impõe, mas sustenta a vida de milhares de espécies e pessoas. É nossa responsabilidade mostrar ao mundo a sua importância.”

O coração hidrológico do Brasil

O painel de encerramento do simpósio foi aberto com a manifestação da professora Maria Júlia Martins, diretora do Centro UnB Cerrado, que destacou a importância da preservação da vegetação nativa e o papel hidrológico do bioma.

Ela explicou que o bioma funciona como uma “esponja”. “Na época da chuva, essas esponjas retêm a água e na época da seca ela vai liberando a água paulatinamente”. Maria Júlia Martins ainda lembrou que o bioma abriga as principais bacias hidrográficas do país, sendo responsável por distribuir água para diversas regiões. “O Cerrado não é apenas soja ou gado; ele mantém comunidades de animais e serviços ecossistêmicos essenciais”, afirmou.

Em seguida, o pesquisador Reuber Brandão, do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB), explicou como o Cerrado está diretamente ligado à crise climática e hídrica. Ele ressaltou que a preservação das áreas naturais é fundamental para o equilíbrio ambiental, a economia e o abastecimento de água.

Segundo Brandão, o Cerrado é a única savana úmida do planeta, sendo muito mais chuvosa do que as savanas da África ou da Austrália. Ele alertou que, quando o bioma é desmatado, é prejudicada não apenas a biodiversidade local, mas toda a distribuição de água para o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica. “A crise hídrica que enfrentamos tem origem direta nesse bioma”, ratificou. Por isso, ao discutir a Amazônia, a comunidade científica destaca que é fundamental reconhecer o papel do Cerrado, pois é de onde vem uma parcela importante das águas da bacia amazônica.

Justiça social e comunidades tradicionais

Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Crédito: David Ayronn / RBC

A necessidade de incluir as comunidades tradicionais também foi enfatizada. Maria Júlia Martins ressaltou o papel dessas comunidades, que utilizam os recursos naturais de forma sustentável. “Elas cultivam, criam animais, usam a água de forma consciente. Essas comunidades devem ser mantidas e valorizadas”, afiançou.

O coordenador geral da Rede Biota Cerrado, Guarino Colli, do Instituto de Biologia da UnB, alertou para a urgência de reconhecer o papel do Cerrado na crise climática e de abandonar a ideia de que seus recursos naturais são inesgotáveis. Ele afirmou que a crise ambiental afeta principalmente as populações mais vulneráveis e carentes.

“Quando falamos em conservação do Cerrado, também estamos falando de justiça social,” afirmou. Colli criticou ainda que o modelo extrativista de exportar commodities deve ser revisto: “a natureza não é uma fonte inesgotável de recursos”, exortou o cientista.

O papel da comunicação e do pensamento sistêmico

Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Crédito: David Ayronn / RBC

A divulgação científica foi outro ponto central do simpósio. Mariana Telles apontou a dificuldade de traduzir o conhecimento científico para o público, defendendo que termos técnicos, como “serviços ecossistêmicos”, sejam explicados de forma acessível. “A gente tem dificuldade de se comunicar. Precisamos de novas estratégias de sensibilização da sociedade,” disse.

A professora Dione Moura reforçou a necessidade de unir ciência e comunicação para mobilizar a sociedade e influenciar tomadas de decisão. Ela defendeu um pensamento sistêmico: “Todos os ecossistemas estão conectados; afetar um, afeta todos”. Ela ressaltou que a estratégia de preservação precisa fazer cada cidadão se sentir parte: “É você cidadão, é você escola, é você empresa, é você estado, município, federação. Cada parte tem que agir neste grande e importante bioma”.

Posicionamento dos principais cientistas do bioma

O 2º Simpósio do Cerrado ocorreu entre os dias 20 e 22 de outubro, reunindo integrantes das redes de pesquisa Araguaia, Biota Cerrado e ComCerrado, que congregam os mais relevantes pesquisadores do bioma em nível global.

As discussões entre os participantes reforçaram o consenso científico de que a proteção do Cerrado deve ser prioridade na agenda ambiental nacional e internacional. Além disso, os cientistas evidenciaram a necessidade de esforços públicos e privados que garantam a conservação do Cerrado e a articulação entre ciência, sociedade civil e governos.