Correr rápido é fator decisivo na reprodução de lagartos do Cerrado, indica estudo

Você já parou para pensar por que alguns animais só têm seus filhotes em determinada época do ano?

Isabela Luduvichack (supervisão Tayanne Silva/RBC)


Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Crédito: Guarino R. Colli / RBC

No Cerrado brasileiro, um estudo realizado com o lagarto Tropidurus oreadicus, uma espécie que só ocorre no Cerrado, mostrou que a sobrevivência desses animais não depende apenas da chuva ou da temperatura. O mais importante é a hora certa em que os filhotes conseguem correr mais rápido.

Publicada na revista científica Biotropica, a pesquisa, feita por cientistas da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e da Universidade de Brasília (UnB), acompanhou ao longo de quatro anos 372 lagartos no Parque Estadual do Lajeado, em Palmas (TO). O método escolhido foi a marcação e recaptura (ou seja, marcar os lagartos e depois reencontrá-los para ver o que aconteceu com eles). Testes sobre como o corpo deles reage ao ambiente também foram avaliados.

Resultados

Os autores, Heitor Sousa, Thiago Portelinha e Guarino Colli, que fazem parte da Rede Biota Cerrado, descobriram que o número desses lagartos (Tropidurus oreadicus) está mais associado ao momento em que os filhotes conseguem se mexer mais rápido para escapar de predadores e buscar comida, do que o quanto chove ou faz calor.

O nascimento dos filhotes ocorre no auge da estação chuvosa – em dezembro e janeiro – porque o clima nessa época deixa o corpo deles em melhor forma para correr. Para um filhote, ser rápido pode ser o diferencial entre viver ou virar comida.

Curioso é que, nos meses secos, os cientistas capturaram mais lagartos adultos. Isso porque a falta de recursos obriga os animais a se mexerem mais, mesmo com um desempenho físico mais desafiador, por conta do clima.

"Nossos resultados destacam a importância de integrar a ecofisiologia para entender os mecanismos da dinâmica populacional, especialmente em ectotérmicos sazonais", afirma Heitor Campos de Sousa, um dos autores do estudo. Ou seja, animais cuja temperatura corporal depende do ambiente ajustam sua atividade e metabolismo conforme as estações do ano.

Equilíbrio do Cerrado

Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Crédito: Guarino R. Colli / RBC

O alerta dos pesquisadores é claro: mudanças no clima e o avanço do desmatamento podem bagunçar esse ciclo natural. Se os filhotes nascerem quando não conseguem se mover bem, toda a população pode sofrer.

"As mudanças climáticas, resultado direto da ação humana, atingem os lagartos de forma gradual. Se as atividades humanas alteram o regime histórico de precipitação ou elevam as temperaturas médias – especialmente o microclima onde esses animais vivem – estamos essencialmente desregulando seu relógio biológico e fisiológico”

, observa um dos autores do artigo e engenheiro ambiental, Thiago Portelinha.

Essa pesquisa reforça como o Cerrado, tão rico em biodiversidade, depende de um equilíbrio delicado. Cuidar da sobrevivência dessas espécies que só encontramos aqui é conservar o bioma.

A importância

O estudo é chave para entender como o clima realmente afeta a vida selvagem. Em vez de apenas correlacionar 'clima quente' com 'poucos animais', é possivel traçar uma linha de causa-efeito.

“O clima regional influencia o clima local (microclima), que afeta o desempenho locomotor (agilidade e velocidade) dos lagartos. Este determina se o lagarto vai conseguir reproduzir (sucesso reprodutivo) e quantos indivíduos teremos naquela população (abundância)”, explica o pesquisador Thiago Portelinha.

Para a ciência, isto estabelece uma base robusta para a ecologia de ectotermos em geral. Para a conservação, ela nos dá uma ferramenta preditiva. “Se soubermos as condições ideais para a sobrevivência de um lagarto ou de outro réptil, podemos prever melhor quais populações são mais vulneráveis e onde as mudanças climáticas ou a perda de hábitat terão o impacto mais devastador."

SERVIÇOS

Acesse o link e confira o estudo!

Acácio, R. S., Sousa, H. C., Portelinha, T. C. G., Colli, G. R., & Malvasio, A. (2025). Precipitation and Temperature-Dependent Locomotor Performance Drive the Abundance of a Neotropical Lizard. Biotropica. https://doi.org/10.1111/btp.70117

Para saber mais sobre a espécie, clique no site chunb.org