Estudo liderado por pesquisadores da RBC revela padrões climáticos que influenciam temporadas extremas de fogo no Cerrado

Publicada em revista internacional, pesquisa analisa como condições de temperatura e chuva antes e durante a estação seca influenciam a ocorrência de fogos em cada uma das 19 ecorregiões do bioma.

Por Lauro Moraes / RBC


Professor Reuber Brandão no programa CB.Agro.
Crédito: David Ayronn / RBC

Um estudo liderado por pesquisadores da Rede Biota Cerrado (RBC) e recém-publicado na revista científica internacional Agricultural and Forest Meteorology aprofunda o conhecimento sobre a relação entre o clima e a atividade do fogo no Cerrado. A pesquisa foi encabeçada por Patrícia Silva, investigadora de pós-doutorado na Yale University e membro da RBC, e tem como coautores Carlos DaCamara, da Universidade de Lisboa, e outros dois pesquisadores da RBC: Renata Libonati, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Luiz Gonçalves, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

O artigo, cujo título se traduz como “Os padrões climáticos que influenciam a ocorrência regional do fogo na savana brasileira”, identifica os fatores climáticos que levam a épocas de fogo mais ou menos severas, fornecendo novos dados que podem melhor informar políticas de manejo do fogo e da conservação no segundo maior bioma da América do Sul.

Os resultados apontam que, embora existam variações regionais consideráveis, as épocas de fogo mais severas são geralmente precedidas por um outono (de março a maio) quente e seco. Essas condições prévias, que coincidem com o período de crescimento da vegetação na maior parte do bioma, resultam em uma maior disponibilidade de biomassa seca, que serve como combustível para as chamas.

Além disso, o estudo confirma que as épocas de fogo extremas também estão associadas a condições quentes e secas durante os meses de pico do fogo, entre agosto e outubro. Em contraste, temporadas mais amenas de fogo estão ligadas a condições mais frias e úmidas tanto no outono quanto durante a própria época de fogo.

Metodologia inovadora e resultados detalhados

Área de Cerrado devastada em Carolina, no Maranhão.
(foto: David Ayronn / RBC).

Para chegar a essas conclusões, a equipe de cientistas analisou dados de um período de 23 anos (2001-2023), focando nos meses de agosto, setembro e outubro, que concentram de 51% a 92% do total da área queimada anualmente nas ecorregiões do Cerrado.

Os pesquisadores usaram duas fontes de dados principais. Funcionando como um “detetive de incêndios”, o MODIS é um sensor a bordo de satélites da NASA que fotografa a superfície da Terra diariamente. Foi usado para identificar e mapear as “cicatrizes” deixadas pelo fogo na vegetação. Comparando as imagens de um dia para o outro, os cientistas conseguem detectar onde o fogo passou e calcular o tamanho exato da área queimada. Foi assim que se mediram as áreas queimadas anuais.

Também foi usado um dado de reanálise que reconstitui o clima do passado em nível global. Chamado ERA5, esse instrumento opera como uma espécie de “historiador do clima”: combina observações de múltiplas fontes (estações em terra, balões, satélites etc.) e usa supercomputadores para criar um mapa completo e contínuo da temperatura e da chuva, hora a hora. Com a reanálise desses dados, os pesquisadores podem avaliar quão quente ou seco estava cada local do Cerrado em qualquer dia, aferindo possíveis causas climáticas dos fogos.

Um dos achados mais relevantes da pesquisa é a distinção entre os fatores que controlam os fogos no início e no final da época de fogo. A área queimada no início, em agosto, é mais influenciada pelas condições climáticas prévias do outono, enquanto a extensão no final da época de fogo, em outubro, depende mais das condições meteorológicas atuais, como a chegada das primeiras chuvas. Setembro aparece como um mês de transição, em que ambos os fatores climáticos prévios e simultâneos podem ter influência nos fogos.

Patrícia Silva explica que é importante compreender essa dinâmica sazonal.

"Monitorar as condições no outono pode nos dar um alerta precoce sobre o potencial de fogo em agosto, permitindo um melhor planejamento de ações preventivas no âmbito do manejo integrado do fogo como queimas prescritas"

, destaca a pesquisadora.

Implicações para o manejo e políticas públicas

Área de Cerrado devastada em Carolina, no Maranhão.
(foto: David Ayronn / RBC).

O estudo fornece informações regionais que podem aprimorar as estratégias de manejo do fogo no Cerrado. Ao identificar que as ecorregiões mais afetadas pelo fogo são também aquelas onde as condições climáticas prévias parecem ter maior influência, a pesquisa abre caminho para a criação de sistemas de alerta regionais.

Renata Libonati ressalta a importância da pesquisa no contexto das mudanças climáticas, que tornam o bioma mais quente e seco.

"Os resultados reforçam que a relação entre fogo e clima é complexa e varia muito dentro do próprio Cerrado. Não podemos tratar o bioma como uma coisa só. As políticas de prevenção e combate precisam levar em conta essas particularidades de cada ecorregião"

, ressaltou a pesquisadora.

O trabalho também enfatiza que, embora o clima seja um fator determinante, a ação humana, por meio de queimadas para limpeza de pastagens e desmatamento, continua sendo a principal causa de ignições no bioma. Futuras avaliações devem integrar também as variáveis socioeconômicas para um entendimento completo da dinâmica do fogo no Cerrado, conclui o estudo.

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Para entender a pesquisa

Área de Cerrado devastada em Carolina, no Maranhão.
(foto: David Ayronn / RBC).

Ecorregiões: são subdivisões do Cerrado definidas por características únicas de paisagem, como relevo, tipo de solo, chuva e uso da terra. O estudo analisou o bioma a partir de 19 dessas regiões para entender as particularidades da relação clima-fogo em cada uma delas.

Condições climáticas prévias: referem-se às condições de temperatura e chuva que ocorrem antes da época de fogo, especificamente durante o outono (março a maio). A pesquisa mostrou que um outono quente e seco pode preparar o cenário para uma época de fogos mais severa, influenciando a quantidade de combustível vegetal seco.

Condições simultâneas ou atuais: referem-se ao clima (temperatura e chuva) que ocorre ao mesmo tempo que a época de fogo, ou seja, durante os meses de agosto a outubro. O estudo descobriu que essas condições são especialmente importantes para determinar a extensão dos fogos no final da época de fogo, em outubro.