Pesquisador britânico debate resistência das florestas amazônicas à seca em workshop na UnB

Evento abordou os limites de resistência hídrica da vegetação e os efeitos das mudanças climáticas na área de transição entre o Cerrado e a Amazônia.

Wanessa Barbosa / Supervisão: Tayanne Silva e Lauro Moraes


David Galbraith, Ben Hur Marimon Junior e Beatriz Juantes Marimon durante o workshop.
David Galbraith, Ben Hur Marimon Junior e Beatriz Juantes Marimon durante o workshop. Crédito: Laryssa Mendonça

Discutir os desafios da ciência e pensar em soluções para o futuro foi o ponto central do Workshop da Rede Centro-Oeste de Pesquisa e Pós Graduação, realizado na última quarta-feira (26), no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB). A Rede Biota Cerrado participou da programação e da organização, que reuniu pesquisadores, docentes, estudantes e integrantes da comunidade em geral de diferentes que abordou temas relacionados ao meio ambiente, à saúde, à sustentabilidade e às mudanças climáticas.

Um dos destaques da programação foi a palestra “Seca Limite: Quantificando os limites de resistência hídrica de florestas da borda sul da Amazônia”, apresentada pelo cientista britânico Prof. David R. Galbraith, da Universidade de Leeds. Os pesquisadores da RBC Ben Hur Marimon Junior e Beatriz Juantes Marimon, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), participaram da discussão que destacou a relação entre o Cerrado e a Amazônia.

Durante a apresentação, Galbraith discutiu como as florestas respondem à falta de água e quais os limites que podem comprometer o seu funcionamento. Em situações de seca extrema, esse processo pode levar ao que o pesquisador chama de “captação catastrófica”, seguido de falha hidráulica e, eventualmente, à morte das árvores.

Esses impactos ganham mais importância quando são consideradas as diferenças ambientais entre as regiões da Amazônia. Na área de transição entre o Cerrado e a Amazônia, por exemplo, as características climáticas e da vegetação podem influenciar a forma como as florestas respondem à disponibilidade de água.

Florestas enfrentam períodos de seca mais intensos

O pesquisador também chamou a atenção para a vulnerabilidade das florestas, associada às variações climáticas e à forma como a vegetação responde às condições ambientais. Na Borda Sul da Amazônia, região de transição entre biomas, essa sensibilidade é ainda maior, deixando as florestas mais próximas dessas limiares que podem comprometer seu funcionamento. “É uma área que está muito mais perto de limiares ecofisiológicos do que outras regiões”, destaca Galbraith.

A proximidade desses limiares ajuda a compreender porque diferentes áreas da Amazônia podem responder de maneiras distintas às mudanças no clima. Isso significa que não existe uma única resposta da floresta à seca: as características ambientais de cada região influenciam sua capacidade de resistir ao estresse hídrico.

A própria localização da Borda Sul ajuda a explicar essa diversidade. A região está inserida em uma área de transição entre dois biomas com características distintas, mas que não são separados por uma fronteira rígida. Essa relação entre Amazônia e Cerrado foi um dos aspectos destacados pela professora Beatriz Juantes Marimon.

De acordo com Marimon, quando se fala em Amazônia e Cerrado, é comum imaginar uma linha separando os dois biomas. No entanto, a transição começa de forma gradual. “Essa mudança ocorre de forma gradual: o Cerrado com suas espécies características e típicas, a vegetação vai ficando gradativamente mais densa, as árvores vão ficando mais altas,” destaca a cientista.

A discussão permite observar que as diferenças entre as formações vegetais influenciam a maneira como cada uma responde às condições climáticas. Nesse contexto, o conhecimento produzido pelas pesquisas pode ajudar a identificar quais áreas apresentam maior vulnerabilidade diante de períodos de seca e de futuras mudanças no clima.

O pesquisador Ben Hur Marimon Junior reforçou que as condições climáticas precisam ser consideradas neste cenário atual. “O clima está mais seco e com estações mais longas, o que os físicos e climatologistas chamam de ‘clima savânico’”, enfatiza o pesquisador.

Além da discussão sobre os impactos da seca e a capacidade das florestas resistirem a falta de água, o workshop reuniu pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento e colocou em pauta temas sobre energia sustentável, prevenção de doenças transmitidas pela dengue, Zika e Chikungunya e alternativas naturais para o controle de pragas e doenças na agricultura.

GLOSSÁRIO

Falha hidráulica catastrófica: o transporte de água no sistema vascular da planta é interrompido devido à formação de embolismos, também conhecidos como bolhas de ar, em condições de seca. Em situações de seca extrema, a perda da capacidade de conduzir água pode se agravar e resultar na morte da árvore.

Limiares ecofisiológicos: valores críticos das condições ambientais a partir dos quais podem ocorrer alterações significativas no funcionamento fisiológico de uma planta, animal ou microrganismo.