Quase 90% dos incêndios no Cerrado têm origem humana, revela pesquisa
Estudo pioneiro, com participação de pesquisadoras da Rede Biota Cerrado, indica que atividades antrópicas são responsáveis pela maioria das causas iniciais do fogo no bioma e aumentam a duração e a intensidade das queimadas ao longo da seca.
Por Ana Brussi | Supervisão e edição: Lauro Moraes
Publicado na revista Communications Earth & Environment, o estudo Human ignitions dominate the fire regimes of the Brazilian Cerrado aponta que a ação humana passou a determinar o regime de fogo no Cerrado. A pesquisa mostra que incêndios de origem antrópica não apenas predominam no bioma, mas também ampliam a duração da temporada de queimadas e tornam o fogo mais frequente, intenso e extenso do que os incêndios naturais causados por raios.
O levantamento, com participação das pesquisadoras da Rede Biota Cerrado Renata Libonati (UFRJ) e Imma Oliveras Menor (Universidade de Oxford), cruzou dados de cada ocorrência de incêndio registrada com informações sobre descargas elétricas entre 2019 e 2023. A análise comparou incêndios naturais, que são apenas os provocados por raios, com ignições — eventos que dão origem ao incêndio — relacionadas ao uso da terra, como limpeza de pastagens, conversão de vegetação nativa para agricultura e queimadas acidentais ou criminosas. "Esse é um estudo pioneiro, pois até então não existiam estudos que contabilizassem o número de fogos decorrentes de causas naturais. Fizemos isso para todo o Cerrado, por um período extenso, relacionando dados de raios com incêndios, estimando assim a quantidade de fogos naturais no bioma", afirmou Dra. Renata Libonati.
Há milhares de anos, o fogo faz parte da dinâmica ecológica natural do Cerrado. Historicamente, os incêndios provocados por raios desempenharam papel importante na manutenção das savanas do bioma. O estudo mostra, porém, que a ação humana passou a predominar amplamente sobre esse processo natural.
O resultado indicou que 89,1% das ignições no Cerrado tiveram origem antrópica, enquanto apenas 7,5% foram provocadas por raios. Segundo o estudo, as ignições por ação humana predominam em mais de 90% da área do bioma. Em regiões de fronteira agrícola, como a ecorregião de Alto Parnaíba, no Matopiba, essa proporção ultrapassa 90%.
A equipe de cientistas também observou que o uso do fogo associado às atividades produtivas ampliou em três vezes a duração da temporada de fogo no Cerrado. Enquanto os incêndios naturais se concentram na transição entre a estação seca e a chuvosa, principalmente em setembro e outubro, as queimadas de origem antrópica ocorrem durante toda a estação seca, entre maio e outubro, com pico em agosto e setembro.
Além da diferença na sazonalidade, o comportamento do fogo também muda conforme a origem da ignição. O estudo aponta que incêndios causados por humanos tendem a ser cerca de dez vezes maiores e duas vezes mais intensos do que aqueles iniciados por raios. Isso ocorre porque as queimadas antrópicas são iniciadas em períodos mais secos e quentes, sob condições de maior déficit de pressão de vapor e menor umidade. Já os incêndios naturais costumam ocorrer durante a transição entre a estação seca e a chuvosa, quando há maior ocorrência de descargas elétricas associadas às primeiras chuvas.
A pesquisa também identificou diferenças na frequência das queimadas. Cerca de 28% das áreas atingidas por incêndios associados a atividades humanas queimaram duas ou mais vezes no período analisado de cinco anos. Nos incêndios causados por raios, essa recorrência ocorreu em apenas 6% das áreas.
Impactos sobre a biodiversidade
O trabalho chama atenção para os efeitos ecológicos da alteração do regime de fogo no Cerrado, considerado um dos principais hotspots de biodiversidade do planeta. Segundo o estudo, mais de 50% da cobertura vegetal original do bioma já foi perdida devido às mudanças no uso da terra.
Embora espécies do Cerrado sejam adaptadas ao fogo, os pesquisadores alertam que a frequência elevada e a intensidade das queimadas de origem antrópica podem comprometer a regeneração da vegetação. Entre os impactos apontados estão o aumento da mortalidade de árvores, redução da biomassa acima do solo e perda de biodiversidade.
O artigo também destaca o risco de transformação de áreas de savana em ambientes degradados com menor cobertura arbórea. Segundo os autores, a alteração do regime natural de fogo pode reduzir a capacidade de recuperação do ecossistema e afetar processos ligados ao armazenamento de carbono e à capacidade do Cerrado de atuar como regulador climático.
Glossário
- Matopiba: área de expansão agrícola que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
- Regime de fogo: conjunto de características que definem a ocorrência do fogo em um ecossistema, incluindo frequência, intensidade, extensão, sazonalidade e causas das queimadas.
- Ignição: evento que dá início a um incêndio, seja por causas naturais, como raios, ou por atividades humanas.
- Incêndio de origem antrópica: iniciado direta ou indiretamente por ações humanas, como queimadas para manejo agropecuário, limpeza de áreas ou acidentes.
- Déficit de pressão de vapor: indicador da capacidade do ar de retirar umidade da vegetação. Quanto maior o déficit, mais secas ficam as plantas e maior tende a ser o risco de propagação do fogo.
- Hotspot de biodiversidade: região que concentra grande riqueza de espécies e alto número de organismos exclusivos, mas que também sofre forte pressão ambiental e perda de habitat.